
Uma estória pr'à história
UMA ESTÓRIA PR'À HISTÓRIA (do OUP)
Andam para aí os manuais de História a dizer que foi D. João ou D. Manuel quem conquistou o Império. Mentira !!
Para colmatar tão grave lacuna cultural e para que fique devidamente registado, aqui vai a verdadeira, a genuína e incontestável versão dos factos que integraram a odisseia a que poderemos, de direito próprio chamar “ a conquista do Império”.
É oportuno fazê-lo agora, que se aproxima a efeméride comemorativa dos 50 anos da digressão do OUP a Moçambique, em 1959.
Fazendo jus ao tradicional inconformismo das bravas hostes lusitanas, também a malta tratou de reagir quando se apercebeu que tinha sido remetida para a classe de “passageiros de 3 ª ” do Império, como se chamava o navio que nos transportava “...para além da Taprobana...”, na viajem de ida para essa memorável digressão.
Para colmatar tão grave lacuna cultural e para que fique devidamente registado, aqui vai a verdadeira, a genuína e incontestável versão dos factos que integraram a odisseia a que poderemos, de direito próprio chamar “ a conquista do Império”.
É oportuno fazê-lo agora, que se aproxima a efeméride comemorativa dos 50 anos da digressão do OUP a Moçambique, em 1959.
Fazendo jus ao tradicional inconformismo das bravas hostes lusitanas, também a malta tratou de reagir quando se apercebeu que tinha sido remetida para a classe de “passageiros de 3 ª ” do Império, como se chamava o navio que nos transportava “...para além da Taprobana...”, na viajem de ida para essa memorável digressão.
Não era que fôssemos racistas ou elitistas, mas o clima da dita classe era irrespirável e, além do mais, vinham por entre os passageiros de 1ª Classe, umas pequenas simpáticas, de cuja existência logo nos apercebemos ao embarcar. Mas a triste e dramática realidade resultava do facto de que as nossas passagens eram, efectivamente, de 3ª (e muita sorte !) e o Sr. Comandante um velho “lobo do mar”, distinto oficial de credenciadas virtudes náuticas, mas...um grande chato ! Era conhecido por ser pouco (ou nada) sociável e totalmente intransigente; nunca viera conviver ou jantar com os passageiros, tão pouco os de 1ª (contra toda a tradição da Marinha Mercante), tendo chegado a deixar em terra a filha, que se atrasara uns poucos minutos, na viajem inaugural dum navio !
A diplomacia da nossa Direcção, habilmente liderada com maestria pelo Maneco, logo tratou de iniciar o “tráfego de influencias” através do nosso saudoso “padrinho e protector”, Prof. Dr. Amândio Tavares (então Reitor da UP), em compadrio com o então Ministro da Educação, Prof. Dr. Leite Pinto. Na falta da NET e dos Fax, bem nos valeram os Telex, já em uso na época; telex para lá, telex para cá e assim se convenceu o Sr. Comandante a deixar-nos frequentar os decks da 1ª Classe, mas sem autorização para se entrar nos Salões. Foi a primeira grande conquista ! Abria-se o caminho para as fases seguintes
Entrou então em acção a persuasão e encanto dos “artistinhas” da nossa Orquestra Ligeira que, corajosa e generosamente se disponibilizou para animar, com grande sucesso, as bailações que se passou a promover no exterior, passando os passageiros da 1ª a optar pelo nosso animado convívio, deixando os faustosos salões às moscas; dava dó ver os músicos da Orquestra de Bordo (carinhosamente designados por “ceguinhos” !) a desbobinar o seu bolorento reportório,...sem auditório ! Foram as vítimas inocentes, completamente frustrados, do sucesso dos nossos artistas !
Face a este desiderato não teve o Comandante outro remédio senão anuir a que frequentássemos os salões, com a condição de ser a nossa animada orquestra a actuar, o que teve integral correspondência dos seus esforçados e “valerosos” elementos (que bem mereciam uma comenda como “heróis do mar”!).
O sucesso foi total, continuando o Comandante a quebrar face à persistência, “engenho e arte” da nossa diplomacia.
Num aspecto, o Comandante não tinha cedido, mantendo-se renitente: só estávamos autorizados a frequentar a piscina até às 10 h da manhã (horário de abertura normal para os passageiros de 1ª), o que era uma violência, obrigando-nos (a nós e aos da 1ª) a fazer “directas” ! É de referir que os ditos de 1ª se tinham solidarizado e só usavam a piscina no mesmo período que nós, ficando a mesma ostensivamente abandonada o resto do dia.
Um pequeno incidente veio favorecer o sucesso da nossa “justa luta”: um passageiro perdera um valioso anel (com um grande brilhante) na piscina ! Esvaziá-la para o recuperar era quase a certeza de que o dito “fosse pelo cano”; é então que dois “valerosos” orfeonistas (o Manel Sena Esteves e outro que, por modéstia, não refiro !) se prontificaram a perscrutar, sem qualquer equipamento, o fundo da piscina durante horas, tendo logrado encontrar o anel. Foi o fim ! O Comandante rendeu-se e foi então que nasceu a conhecida balada
“ Piscina,...é nossa...” (BIS)
adaptada pelo “regime”, poucos anos depois, se bem se lembram !
O passo seguinte decorreu de a Direcção ter tido então a ideia brilhante de aproveitar a necessidade de se fazer um “ensaio geral” para oferecer um “sarau” em honra do Comandante, convidando todos os passageiros de todas as classes. A iniciativa teve o melhor acolhimento e o sarau foi um sucesso não só do ponto de vista artístico, como pela animação decorrente da componente humorística recheada das tradicionais piadas académicas que caracterizavam o nosso espectáculo. Registe-se que o relacionamento era tal que permitiu que fosse já o próprio Comandante visado nalgumas das irreverências, ao que reagiu já com bom humor ! Já era outro !
Entendeu ele, então, retribuir convidando todos os elementos do OUP para um jantar na Sala de Jantar da 1ª . Era, ao que constava, a primeira vez que se dignava descer do seu “covil”, tendo convidado para a sua mesa uma representação da Direcção !
Cortesia pede cortesia e, aproveitando a “maré favorável”, o OUP organizou um baile para a 1ª Classe, em homenagem ao Comandante (para não se poder “baldar” !). Seria o fim ! Ia-se assistir a um momento memorável: a nossa “irreverência académica” ia, com a cumplicidade do Imediato e do Comissário (malta da corda), armar uma “ratoeira ao sisudo “lobo-do-mar”. Em momento estabelecido, os ditos cúmplices iriam sentar-se ao seu lado, avançando uma “embaixada feminina” (recordo que a Luisa Araújo Jorge tinha a seu cargo o Comandante e a Esmeralda Graça, o Comissário); com o mais requintado formalismo protocolar os três foram convidados para a dança anunciada, ao que os dois “traidores” correspondiam de imediato, deixando o pobre velho completamente encurralado, sem alternativa !!
Quando se levantou para dançar, o barco ia indo ao fundo com a ovação de todos os presentes; alguns não conseguiram evitar que escapasse uma lágrima. Foi um momento efectivamente emocionante e inesquecível ! Não me admiraria que tivesse ficado registado no Diário de Bordo.
A partir daí consumou-se a “conquista do Império”: o barco era nosso e o Comandante completamente rendido à “malta” !
Creio ser elucidativo referir a cena da partida em Cape Town em que, tendo-nos perdido no OK Bazar (o Quim Saraiva e eu) e chegado com 20 minutos de atraso ao cais, estava o Comandante (com ar de “Avozinho amuado”) encostado à Escada de Portaló,.... à nossa espera !
Nesta conquista a única violência foi a do bom humor e classe da irreverência académica, que caracterizava o estilo da nossa embaixada e, afinal, da vida universitária de então.
Armando MG
Face a este desiderato não teve o Comandante outro remédio senão anuir a que frequentássemos os salões, com a condição de ser a nossa animada orquestra a actuar, o que teve integral correspondência dos seus esforçados e “valerosos” elementos (que bem mereciam uma comenda como “heróis do mar”!).
O sucesso foi total, continuando o Comandante a quebrar face à persistência, “engenho e arte” da nossa diplomacia.
Num aspecto, o Comandante não tinha cedido, mantendo-se renitente: só estávamos autorizados a frequentar a piscina até às 10 h da manhã (horário de abertura normal para os passageiros de 1ª), o que era uma violência, obrigando-nos (a nós e aos da 1ª) a fazer “directas” ! É de referir que os ditos de 1ª se tinham solidarizado e só usavam a piscina no mesmo período que nós, ficando a mesma ostensivamente abandonada o resto do dia.
Um pequeno incidente veio favorecer o sucesso da nossa “justa luta”: um passageiro perdera um valioso anel (com um grande brilhante) na piscina ! Esvaziá-la para o recuperar era quase a certeza de que o dito “fosse pelo cano”; é então que dois “valerosos” orfeonistas (o Manel Sena Esteves e outro que, por modéstia, não refiro !) se prontificaram a perscrutar, sem qualquer equipamento, o fundo da piscina durante horas, tendo logrado encontrar o anel. Foi o fim ! O Comandante rendeu-se e foi então que nasceu a conhecida balada
“ Piscina,...é nossa...” (BIS)
adaptada pelo “regime”, poucos anos depois, se bem se lembram !
O passo seguinte decorreu de a Direcção ter tido então a ideia brilhante de aproveitar a necessidade de se fazer um “ensaio geral” para oferecer um “sarau” em honra do Comandante, convidando todos os passageiros de todas as classes. A iniciativa teve o melhor acolhimento e o sarau foi um sucesso não só do ponto de vista artístico, como pela animação decorrente da componente humorística recheada das tradicionais piadas académicas que caracterizavam o nosso espectáculo. Registe-se que o relacionamento era tal que permitiu que fosse já o próprio Comandante visado nalgumas das irreverências, ao que reagiu já com bom humor ! Já era outro !
Entendeu ele, então, retribuir convidando todos os elementos do OUP para um jantar na Sala de Jantar da 1ª . Era, ao que constava, a primeira vez que se dignava descer do seu “covil”, tendo convidado para a sua mesa uma representação da Direcção !
Cortesia pede cortesia e, aproveitando a “maré favorável”, o OUP organizou um baile para a 1ª Classe, em homenagem ao Comandante (para não se poder “baldar” !). Seria o fim ! Ia-se assistir a um momento memorável: a nossa “irreverência académica” ia, com a cumplicidade do Imediato e do Comissário (malta da corda), armar uma “ratoeira ao sisudo “lobo-do-mar”. Em momento estabelecido, os ditos cúmplices iriam sentar-se ao seu lado, avançando uma “embaixada feminina” (recordo que a Luisa Araújo Jorge tinha a seu cargo o Comandante e a Esmeralda Graça, o Comissário); com o mais requintado formalismo protocolar os três foram convidados para a dança anunciada, ao que os dois “traidores” correspondiam de imediato, deixando o pobre velho completamente encurralado, sem alternativa !!
Quando se levantou para dançar, o barco ia indo ao fundo com a ovação de todos os presentes; alguns não conseguiram evitar que escapasse uma lágrima. Foi um momento efectivamente emocionante e inesquecível ! Não me admiraria que tivesse ficado registado no Diário de Bordo.
A partir daí consumou-se a “conquista do Império”: o barco era nosso e o Comandante completamente rendido à “malta” !
Creio ser elucidativo referir a cena da partida em Cape Town em que, tendo-nos perdido no OK Bazar (o Quim Saraiva e eu) e chegado com 20 minutos de atraso ao cais, estava o Comandante (com ar de “Avozinho amuado”) encostado à Escada de Portaló,.... à nossa espera !
Nesta conquista a única violência foi a do bom humor e classe da irreverência académica, que caracterizava o estilo da nossa embaixada e, afinal, da vida universitária de então.
14. AGOSTO.2008






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