O "Assalto" ao Srº Ministro
O “ASSALTO” AO SR. MINISTRO
Esta história não é “do tempo em que os animais falavam” ou em que “as galinhas tinham dentes”, mas tão antiga que havia “serviço militar obrigatório” ! Imaginem a violência ! O dito serviço esperava também os jovens mancebos “aptos para todo o serviço”, no final da sua licenciatura, tendo de frequentar o COM (Curso de Oficiais Milicianos): 6 meses, a somar aos de espera pala 1ª incorporação), o que era um considerável “atraso de vida”.
Por simpatia do General Arnaldo Schultz, fundador da Milícia (da Mocidade Portuguesa) foi criado o CEPM (Curso Especial de Preparação Militar) que facultava a possibilidade de substituir os 6 meses do tal COM por um regime de “prestações”, às 4ªs e Sábados, durante 3 anos, com inclusão de um “acampamento” de 2 meses no Verão. Muitos contemporâneos nossos aproveitavam esta facilidade, ingressando directamente no tal serviço militar (à data 1,5 anos) logo a seguir à conclusão do curso; a frequência do CEPM era facultativa, com excepção dos candidatos ao ingresso na Academia Militar, que eram “obrigatoriamente voluntários” !
De entre estas jovens “esperanças” havia elementos do OUP que foram confrontados com a trágica perspectiva de serem impedidos de participar na digressão a Moçambique ! A maioria participava nas “variedades”, sendo alguns dificilmente substituíveis, pelo que a sua ausência poderia comprometer a qualidade do espectáculo. Um primeiro requerimento ao Ministro do Exército, subscrito pela Direcção do OUP e encaminhado com o apadrinhamento do nosso Reitor (e protector) e acompanhamento do Sr. Ministro da Educação, Prof. Dr. Leite Pinto, mereceu um despacho com um redondo “não” !
Inconsoláveis e inconformados com tal perspectiva de se perder tão aliciante oportunidade e incentivados pelo Sr. Reitor (quase tão condoído como nós !) que nos muniu das credenciais convenientes, eis que uma delegação de quatro dos visados (um dos quais, o Serrano, sendo natural de Lourenço Marques, vislumbrava ainda aproveitar para visitar a Família) avançou para Lisboa para tentar que o nosso Ministro nos abrisse as portas mais convenientes. O meu Pai, sempre “compincha”, colaborou emprestando o carro para avançarmos de imediato numa “directa” para a Capital o que, só por si, era já (então) uma aventura: quem se lembra do “fadário”, antes de haver auto-estradas ?
Chegámos ao Ministério quase ao fim da manhã; estacionámos o carro “às 3 pancadas” (mas sem criar problemas de trânsito !), correndo para o interior do edifício do Ministério, no interior do qual havia uma ampla e imponente escadaria que dava acesso à sala de espera que dispunha de janelas sobre a dita escadaria. O “contínuo”, impecável na sua farpela e que nos recebeu com a maior simpatia, pediu-nos que esperássemos, pois seríamos recebidos “logo que possível” (expressão portuguesa que significa “não se sabe quando”!); de facto, qual não é a minha surpresa quando, ao debruçar-me numa das janelas para dar “duas puchas”, vejo Sua Ex.ª e demais comitiva a descer a tal escadaria, deixando-nos “pendurados” ! Se calhar nem teria, sequer, sido informado da nossa chegada.
Alertada a malta, precipitamo-nos pela escadaria, no que íamos sendo impedidos pelo tal contínuo, que foi de roldão à nossa frente; chegados à porta, já o carro ministerial arrancara ! Sem mais hesitações fui a correr buscar o meu, felizmente perto, lançando-nos em feroz perseguição do carro de Sua Ex.ª que, com bastante sorte, alcançámos ao fim de alguns momentos !
Pouco depois apercebi-me que o motorista, olhando repetidamente pelo retrovisor, dava mostras de ter notado que estava sendo perseguido, tendo parado bruscamente à porta duma Esquadra da PSP, para onde se dirigiu, correndo ! Simultaneamente o Mesquita Guimarães (trajando a “capa e batina”, cuidado que tivemos todos, pois poderia ser conveniente) saltou do carro, dirigindo-se ao Ministro, batendo ao vidro, mesmo do seu lado, ao que ele correspondeu, meio hesitante, meio divertido, mandando-o entrar e sentando-o a seu lado !
O motorista, que nunca ouvira falar de “carJacking” (ainda não tinham chegado as “novas tecnologias”!), percebeu que se não tratava de vulgares assaltantes ou terroristas, regressou à viatura, retomando a marcha, seguindo nós, placidamente atrás, a caminho de S. Bento. O stress não acabara, apenas porque não houvera tempo para reabastecer o carro, quase sem gasolina, correndo nós o risco de ficarmos “engasgados” a todo o momento e perdermos o rasto ao Ministro mai' lo nosso colega ! Foi tudo “adrenalina” !
Finalmente e para nosso grande alívio o carro quedou-se já perto de S. Bento, saindo o Mesquita Guimarães que se despedia com um cordial aceno, deixando perceber que a conversa decorrera de forma afável e que tinham ficado “íntimos”! A sua diplomacia parecera ter sucesso, acabando da melhor forma o nosso assalto (mais tarde copiado pelo Henrique Galvão, no sequestro do Stª. Maria !).
Seguindo a estratégia sugerida pelo Sr. Ministro e após contacto seu com o Ministro do Interior, precisamente o tal General Schultz (pai do CEPM e, portanto, sempre com um “fraquinho” pela “sua malta”) foi marcada uma entrevista na expectativa de que seria a pessoa indicada para engendrar uma saída e a defender, com sucesso junto do famigerado Ministro de Exército, casualmente seu amigo ! A “cunha” tinha sido tão eficaz que fomos recebidos em sua casa (em obras e com os móveis cobertos de lençóis, facto de que se desculpou, cordialmente), e com ele em mangas de camisa ! Só faltou bebermos um copo ! Com um grande sorriso, gracejou:
“... com que então, foram vocês que assaltaram o Ministro da Educação ?!...”
acrescentando que nos corredores ministeriais se não falava de outra coisa !
A solução encontrada passou por solicitarmos a perda daquele ano do CEPM, a repetir no ano seguinte, o que não prejudicou ninguém e, muito menos, a Pátria ! Para nós tal “chumbo” não manchava o nosso currículo !
Assim se conseguiu a minha primeira anulação (e não a única- isso é outra história) dum despacho do Ministro do Exército e se alcançou o objectivo de participarmos na digressão a Moçambique, a contento também da Direcção do OUP que assim viu resolvido, também, o seu problema.
Na época a “capa e batina” abria muitas portas, confirmando a velha máxima de que (quase sempre) “o hábito faz o Monge”, além de que, também,…”quem tem capa, sempre escapa” !
Armando MG
Esta história não é “do tempo em que os animais falavam” ou em que “as galinhas tinham dentes”, mas tão antiga que havia “serviço militar obrigatório” ! Imaginem a violência ! O dito serviço esperava também os jovens mancebos “aptos para todo o serviço”, no final da sua licenciatura, tendo de frequentar o COM (Curso de Oficiais Milicianos): 6 meses, a somar aos de espera pala 1ª incorporação), o que era um considerável “atraso de vida”.
Por simpatia do General Arnaldo Schultz, fundador da Milícia (da Mocidade Portuguesa) foi criado o CEPM (Curso Especial de Preparação Militar) que facultava a possibilidade de substituir os 6 meses do tal COM por um regime de “prestações”, às 4ªs e Sábados, durante 3 anos, com inclusão de um “acampamento” de 2 meses no Verão. Muitos contemporâneos nossos aproveitavam esta facilidade, ingressando directamente no tal serviço militar (à data 1,5 anos) logo a seguir à conclusão do curso; a frequência do CEPM era facultativa, com excepção dos candidatos ao ingresso na Academia Militar, que eram “obrigatoriamente voluntários” !
De entre estas jovens “esperanças” havia elementos do OUP que foram confrontados com a trágica perspectiva de serem impedidos de participar na digressão a Moçambique ! A maioria participava nas “variedades”, sendo alguns dificilmente substituíveis, pelo que a sua ausência poderia comprometer a qualidade do espectáculo. Um primeiro requerimento ao Ministro do Exército, subscrito pela Direcção do OUP e encaminhado com o apadrinhamento do nosso Reitor (e protector) e acompanhamento do Sr. Ministro da Educação, Prof. Dr. Leite Pinto, mereceu um despacho com um redondo “não” !
Inconsoláveis e inconformados com tal perspectiva de se perder tão aliciante oportunidade e incentivados pelo Sr. Reitor (quase tão condoído como nós !) que nos muniu das credenciais convenientes, eis que uma delegação de quatro dos visados (um dos quais, o Serrano, sendo natural de Lourenço Marques, vislumbrava ainda aproveitar para visitar a Família) avançou para Lisboa para tentar que o nosso Ministro nos abrisse as portas mais convenientes. O meu Pai, sempre “compincha”, colaborou emprestando o carro para avançarmos de imediato numa “directa” para a Capital o que, só por si, era já (então) uma aventura: quem se lembra do “fadário”, antes de haver auto-estradas ?
Chegámos ao Ministério quase ao fim da manhã; estacionámos o carro “às 3 pancadas” (mas sem criar problemas de trânsito !), correndo para o interior do edifício do Ministério, no interior do qual havia uma ampla e imponente escadaria que dava acesso à sala de espera que dispunha de janelas sobre a dita escadaria. O “contínuo”, impecável na sua farpela e que nos recebeu com a maior simpatia, pediu-nos que esperássemos, pois seríamos recebidos “logo que possível” (expressão portuguesa que significa “não se sabe quando”!); de facto, qual não é a minha surpresa quando, ao debruçar-me numa das janelas para dar “duas puchas”, vejo Sua Ex.ª e demais comitiva a descer a tal escadaria, deixando-nos “pendurados” ! Se calhar nem teria, sequer, sido informado da nossa chegada.
Alertada a malta, precipitamo-nos pela escadaria, no que íamos sendo impedidos pelo tal contínuo, que foi de roldão à nossa frente; chegados à porta, já o carro ministerial arrancara ! Sem mais hesitações fui a correr buscar o meu, felizmente perto, lançando-nos em feroz perseguição do carro de Sua Ex.ª que, com bastante sorte, alcançámos ao fim de alguns momentos !
Pouco depois apercebi-me que o motorista, olhando repetidamente pelo retrovisor, dava mostras de ter notado que estava sendo perseguido, tendo parado bruscamente à porta duma Esquadra da PSP, para onde se dirigiu, correndo ! Simultaneamente o Mesquita Guimarães (trajando a “capa e batina”, cuidado que tivemos todos, pois poderia ser conveniente) saltou do carro, dirigindo-se ao Ministro, batendo ao vidro, mesmo do seu lado, ao que ele correspondeu, meio hesitante, meio divertido, mandando-o entrar e sentando-o a seu lado !
O motorista, que nunca ouvira falar de “carJacking” (ainda não tinham chegado as “novas tecnologias”!), percebeu que se não tratava de vulgares assaltantes ou terroristas, regressou à viatura, retomando a marcha, seguindo nós, placidamente atrás, a caminho de S. Bento. O stress não acabara, apenas porque não houvera tempo para reabastecer o carro, quase sem gasolina, correndo nós o risco de ficarmos “engasgados” a todo o momento e perdermos o rasto ao Ministro mai' lo nosso colega ! Foi tudo “adrenalina” !
Finalmente e para nosso grande alívio o carro quedou-se já perto de S. Bento, saindo o Mesquita Guimarães que se despedia com um cordial aceno, deixando perceber que a conversa decorrera de forma afável e que tinham ficado “íntimos”! A sua diplomacia parecera ter sucesso, acabando da melhor forma o nosso assalto (mais tarde copiado pelo Henrique Galvão, no sequestro do Stª. Maria !).
Seguindo a estratégia sugerida pelo Sr. Ministro e após contacto seu com o Ministro do Interior, precisamente o tal General Schultz (pai do CEPM e, portanto, sempre com um “fraquinho” pela “sua malta”) foi marcada uma entrevista na expectativa de que seria a pessoa indicada para engendrar uma saída e a defender, com sucesso junto do famigerado Ministro de Exército, casualmente seu amigo ! A “cunha” tinha sido tão eficaz que fomos recebidos em sua casa (em obras e com os móveis cobertos de lençóis, facto de que se desculpou, cordialmente), e com ele em mangas de camisa ! Só faltou bebermos um copo ! Com um grande sorriso, gracejou:
“... com que então, foram vocês que assaltaram o Ministro da Educação ?!...”
acrescentando que nos corredores ministeriais se não falava de outra coisa !
A solução encontrada passou por solicitarmos a perda daquele ano do CEPM, a repetir no ano seguinte, o que não prejudicou ninguém e, muito menos, a Pátria ! Para nós tal “chumbo” não manchava o nosso currículo !
Assim se conseguiu a minha primeira anulação (e não a única- isso é outra história) dum despacho do Ministro do Exército e se alcançou o objectivo de participarmos na digressão a Moçambique, a contento também da Direcção do OUP que assim viu resolvido, também, o seu problema.
Na época a “capa e batina” abria muitas portas, confirmando a velha máxima de que (quase sempre) “o hábito faz o Monge”, além de que, também,…”quem tem capa, sempre escapa” !
Armando MG
28. Agosto . 2008
Actualizado em (Quinta, 27 Maio 2010 16:39)






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